É a Black Friday uai…



Por Ana Paula Tozzi

Criada em 1952 como a data que oficializa o início da temporada de vendas de Natal, a black friday é a sexta-feira seguinte ao dia de Ação de Graças, celebrado em larga escala nos Estados Unidos (Thanksgiving[1]). Apesar de não ser oficialmente um feriado, em vários estados americanos e na maioria das escolas, esta sexta-feira torna-se uma “ponte” de feriado, tornando o período mais longo e propício para os preparativos de natal. Assim snedo, como forma de aproveitar a oportunidade do volume de consumidores circulando pelos shoppings e ruas de compras, os varejistas costumavam abrir suas lojas mais cedo, com ofertas tentadoras com o intuito de antecipar parte dos presentes de natal. Com o volume de vendas absurdo nesses quatro dias do feriado, dizia-se que os varejistas tirariam os resultados do vermelho e passariam para o preto. Por isso o “black”.

Esse foi o dia de maior fluxo de vendas no ano do varejo americano entre 2005 e 2014. Por que 2014? Porque pela primeira vez, mesmo com a economia sem recessão, os Americanos viram as vendas desse período cair 11%. O que aconteceu? Explico mais adiante.

Mas antes, vamos entender como essa data veio parar no Brasil. Em 2010, de forma totalmente online, um grupo de varejistas se uniu e resolveu acompanhar o mercado americano, lançando o “blaquifraidai” no Brasil. Afinal de contas, com a popularização da internet, os brazucas vinham acompanhando alguns Black Fridays e estavam babando pelas ofertas. Esses varejistas entenderam que seria uma promoção bem aceita, mesmo que a data não fosse feriado no Brasil.

Os primeiros resultados foram animadores para os varejistas brasileiros, mas nem tanto para os consumidores. Os caçadores de ofertas logo perceberam que alguns varejos oportunistas aumentavam os valores dos itens para fingir descontos maiores. Eram as falsas promoções ou da “Black Fraude”. O mercado não demorou a reagir e se auto organizou nos sites de denúncia,  nos sites de comparação de preços e no código de ética do e-commerce. Hoje, varejistas do Brasil inteiro (online e off-line) adotaram a Black-Friday como uma data de promoções.

Voltando ao mercado americano. Por que as vendas da Black Friday de 2014 e dos anos seguintes caíram? Porque alguns varejistas começaram a desfigurar a data, antecipando e/ou postergando as promoções de forma a ampliar o período dos descontos. Ou seja, no afã de capturar antes dos demais ou tentar vender mais e por mais tempo que os concorrentes, os varejistas esticaram o calendário com mais ofertas. Como muitos fizeram a mesma coisa, acabaram descaracterizando a data e diluindo as vendas e os descontos para um período maior. Diluir descontos…diluir margens? Pois é.

Nós no Brasil, já temos “Outubro Black”(sério!), “Black Wednesday”, “Black Week”, e nessa semana (6/11) presenciei em Guaxupé-MG o lançamento da “Black Uai! Descontos Incríveis” antes de “todo mundo”. Será que o consumidor já não é inteligente o suficiente para entender que se você faz promoções “incríveis” em qualquer mês do ano, em qualquer época, qualquer hora, significa que ele pode negociar com você a qualquer tempo ou pior, não precisa ser fiel a nenhuma data sua, já você mesmo não o é?

Com a quantidade de informações que temos hoje sobre os consumidores, seus hábitos de consumo, seus comportamentos e sazonalidades os varejistas não conseguem bolar promoções mais customizadas e, inclusive, mais rentáveis?

Acho que tanto na gringolândia como aqui, já passou da hora de repensarmos nossas estratégias de venda e promoções. Que tal partirmos para uma transparência maior no relacionamento com o consumidor e tratá-lo de forma mais inteligente? Será que acompanhar a boiada ainda faz sentido, uai?

[1] (Thanksgiving*) – Proclamado feriado nacional americano por Abraham Lincoln desde 1864, celebra o final da colheita com preces de agradecimento a Deus.