Cadê aquele brasileiro criativo?



 

⠀⠀⠀Já destaquei em outro Papo Jedi a importância de acompanhar os impactos da Covid-19 na cadeia de consumo como um todo. A AGR Consultores vem analisando semanalmente os impactos econômicos, e não podemos deixar de destacar como esse período tem sido especialmente cruel com varejo não-alimentar e com o segmento foodservice. As projeções mais pessimistas falam em fechamento de 30% dos restaurantes e de 25% dos pequenos lojistas. Infelizmente, pode ser verdade.

⠀⠀⠀Nesse artigo de hoje, não vou trocar lamurias com vocês. Na verdade, quero trocar ideias e passar algumas frustrações que passei nas últimas duas datas importantes para o varejo: Dia das Mães e Dia dos Namorados.

 

“UAU! Minha filha preparou ISSO tudo para mim?” Só que não…

 

⠀⠀⠀O momento “Dia das Mães”, mais conhecido pelo varejo como o “segundo natal”, é um grande termômetro de como será o ano. Normalmente, é uma semana de boas vendas, restaurantes lotados, flores e presentes de maior valor agregado. Afinal, mãe é mãe.

⠀⠀⠀Com a pandemia, esse ano foi diferente. Tivemos um Dia das Mães predominantemente digital. Com o consumidor em casa, com mais tempo disponível para navegar e usar da criatividade, o que eu e muitos consumidores esperávamos do varejo e dos restaurantes? Vamos lá.

⠀⠀⠀Na segunda-feira 4 de maio, 6 dias antes do evento, acordei com a ideia fixa de fazer algo diferente para a minha mãe. Afinal, todos os anos é a mesma coisa, saio correndo na véspera e compro alguma peça de roupa que é a cara dela. Nada que ela fale “UAU! Minha filha preparou isso tudo para mim? Que surpresa!”. Com aquela vida corrida, viajando muito, trabalhando muito, 3 filhas, 2 cachorros, casa…. Era o melhor que eu podia fazer. Mas, a Covid-19 veio e eu finalmente tinha tempo de parar e organizar algo incrível. Bastava achar algo incrível.

⠀⠀⠀De forma geral, encontrei ofertas de cestas de café da manhã, umas mais legais, outras menos; as roupas, sapatos e acessórios com ofertas interessantes, mas nada novo ou diferente; ofertas de delivery de almoço e outras refeições de vários restaurantes acostumados ou não às entregas a domicílio, mas, de novo, nada diferente! Nenhuma experiência que minha mãe ficasse com um “UAU” na cara. Acabei comprando uma cesta com produtos naturais de café da manhã, após duas negativas de entrega, uma pelo local e a outra por falta de capacidade. Ela gostou, mas eu me frustrei.

 

Dia dos Namorados: será que agora vai ser diferente?

 

⠀⠀⠀Poucas semanas depois, chegou o Dia dos namorados. Imaginei que, nessa data, o varejo seria mais ousado. Mesmo após 24 anos de casamento, queria que essa data fosse diferente. Afinal, acho que nunca convivemos tanto com nossos pares e nunca tivemos esse tempo disponível para fazer algo surpreendente. De novo, não encontrei nada inovador, nada “super” criativo. Será que eu quero demais? O que eu sonhava? O que eu esperava do varejo e do foodservice em ambas as datas?

⠀⠀⠀Na AGR Consultores, há dois anos estamos construindo com nossos clientes ecossistemas de empresas que se complementem de forma a entregar jornadas diferenciadas para seus clientes (já escrevi outros “Papo Jedi” sobre os ecossistemas, você pode conferir em nosso site www.agrconsultores.com.br). Por que não usar esse período da Covid-19 para testar esses modelos? Afinal, o consumidor está mais aberto a ideias e compreensível a erros.

⠀⠀⠀Por que Giuliana Flores não se uniu à Cacau Show ou à Kopenhagen e com a Rappi ofereceram para minha mãe “O” almoço mais completo da vida dela? Por que a Intimissi não se uniu à Trousseau e à Drogasil para fornecer uma noite perfeita para os casais? Por que os restaurantes não se uniram à Camicado ou à Tok&Stok e prepararam um jantar “quase pronto”, com o charme da receita para os namorados montarem juntinhos uma refeição e uma mesa linda com pratos, jogo americano, tudo com tema romântico? Ou até, por que não se uniram ao Mundo do Enxoval e mandaram o avental e o chapéu de cozinheiro com coração e nome do casal bordados? E os shoppings? Com toda a variedade de lojistas, poderiam ter ousados de infinitas maneiras, vendendo o “box dos sonhos”: com experiências imediatas e futuras, de forma a atrair o cliente após a pandemia… Enfim, posso escrever diversas e mais diversas experiências que trariam surpresas incríveis.

 

E vem aí… Dia dos Pais!

 

⠀⠀⠀A Covid-19, de certa forma, deu uma oportunidade de colocar varejistas e restaurantes cara a cara com novos consumidores, que buscam e merecem novas experiências. Imigrantes digitais, jovens, donas de casa, executivos estressados, todos em busca de ocupar uma certa ociosidade nunca vivida, arriscaram-se na web. Consumimos novas marcas, conhecemos novas empresas e utilizamos novos canais de venda. Mas, vivemos poucos momentos de ousadia com o varejo e o foodservice. Me pergunto: por que temos tanta dificuldade em olhar para fora de nossos próprios negócios? Por que não unimos forças com concorrentes, parceiros e segmentos complementares e trazemos para nossas bases de dados clientes especiais, dispostos a uma aventura com nossas marcas?

⠀⠀⠀Precisamos resgatar nossa criatividade e ousadia que estão adormecidas em nós. Nós, brasileiros, sempre fomos imbatíveis e reconhecidos por superar dificuldades e lidar com as piores crises. Vamos lá, o Dia dos Pais vem aí!