Ana Paula Tozzi fala ao DCI sobre o futuro da Via Varejo



Resultados ruins colocam em xeque o futuro do braço de eletrônicos do GPA

DCI – 16 de Novembro de 2016

A sinalização do Grupo Pão de Açúcar de estar revendo seus investimentos na Via Varejo trouxe questionamentos sobre o que será feito da operação. Para especialistas, alternativa seria vendê-la

São Paulo – Diante da sinalização do Grupo Pão de Açúcar (GPA) de que está revendo o investimento na Via Varejo, seu braço de móveis e eletroeletrônicos, – e em meio a resultados fracos nos últimos trimestres -, especialistas avaliam a situação da empresa e as alternativas para o futuro. A melhor solução, na visão de todos, seria uma só: se desfazer da operação.

“A venda da Via Varejo é uma alternativa interessante, porque ajudaria o GPA a focar no segmento alimentar, que é onde eles têm se saído melhor. O braço de eletroeletrônicos não está indo bem, e não se consegue inovar ou trazer nenhum diferencial. O melhor seria sair de lá o quanto antes”, afirma o diretor vogal do Instituto Brasileiro de Executivos de Varejo e Mercado de Consumo (Ibevar), Nuno Fouto.

Desde o segundo trimestre de 2015, a Via Varejo, controladora da Casas Bahia e Ponto Frio, apresentou prejuízo líquido em praticamente todos os trimestres, sendo que no intervalo de julho a setembro deste ano o prejuízo foi de R$ 90 milhões – mais que o dobro do visto no mesmo período de 2015. Em relação à receita líquida, os resultados também têm sido fracos e nos últimos sete trimestres a empresa teve queda, na comparação anual, em cinco deles (veja no gráfico).

Na avaliação do sócio da consultoria Enéas Pestana & Associados, Sandro Benelli, desde que o Casino assumiu o controle do GPA, em junho de 2012, a operação de eletroeletrônicos ficou em xeque. “Para o Casino faz todo o sentido vender a Via Varejo. Dentro de uma estratégia global, não se justifica uma operação tão grande do segmento não alimentar, e apenas no Brasil”, aponta o especialista, que já trabalhou no grupo francês. Dos oito países em que a companhia atua, o Brasil é o único com unidades voltadas apenas para a venda de móveis e eletroeletrônicos.

Expandir foi arriscado?

O GPA, que começou como uma empresa voltada exclusivamente ao varejo alimentar, adquiriu em junho de 2009 o Ponto Frio, e, alguns meses depois, a Casas Bahia, expandindo seu nicho de atuação. Para Fouto, do Ibevar, a decisão foi arriscada. “Ao se comprar empresas muito grandes o risco sempre é maior. Além disso, aumentar o faturamento não necessariamente faz com que se aumente a produtividade e rentabilidade da companhia.”

A CEO da AGR Consultores, Ana Paula Tozzi, concorda que foi uma jogada arriscada e diz que o segmento de eletroeletrônicos é muito sujeito ao crédito e as mudanças das condições macroeconômicas, o que torna a operação mais complicada. “Desde o final de 2015, o segmento está em uma crise profunda. A própria Via Varejo, por exemplo, fechou 31 unidades”, afirma.

Prova disso, na última Pesquisa Mensal do Comércio (PMC), do IBGE, referente ao mês de setembro, o segmento de móveis e eletrodomésticos acumulou retração de 14,6%, nos últimos 12 meses – uma das maiores quedas dentro do varejo brasileiro.

“Apesar da margem ser um pouco maior do que a do varejo alimentar, o risco é muito elevado para uma rentabilidade ainda apertada”, diz Fouto. “Há, por exemplo, o risco da inadimplência do consumidor. Das quebras homéricas que vimos no varejo brasileiro, a grande maioria foi com bens duráveis, e sempre ligadas a questão do crédito.”

Para o especialista, outro ponto que deve ser levado em consideração é o resultado positivo que a rede de atacarejo Assaí vem apresentando – o que justificaria focar todos os esforços da companhia apenas no ramo alimentar. No terceiro trimestre deste ano a varejista teve uma alta de 75,6% no lucro líquido, que somou R$ 65 milhões. A receita líquida também avançou em 46%.

Tornar mais atrativa

Recentemente o GPA anunciou a junção entre a operação da Via Varejo e da Cnova (braço de e-commerce da Casas Bahia, Ponto Frio e Extra). O objetivo seria gerar ganhos expressivos de sinergia. Na visão dos especialistas, no entanto, a estratégia pode ter sido adotada para tornar a Via Varejo mais atrativa para uma possível venda.

“É óbvio que ao colocar a Cnova dentro da operação torna a Via Varejo mais atrativa. Se fizeram isso já pensando em vender, foi uma estratégia assertiva”, diz Benelli, da Enéas Pestana & Associados.