A fuga do algoritmo



Por Clemente Hungria

Uma reportagem veiculada recentemente na CBN mostrou a completa futilidade dos gurus que perdem tempo tentando prever as “novas” micro tendências dessa nossa sociedade digital e totalmente conectada. A reportagem comenta sobre os resultados de um estudo conduzido pelo Professor Ryan Raffaelli da Harvard Business Shcool em uma área conhecida como technology reemergence, termo que poderia ser livremente traduzido como “ressurgimento tecnológico”. O estudo analisa o fenômeno do reaparecimento, em plena era da revolução digital, de tecnologias, processos e modelos de negócio analógicos que os tais “gurus” considerariam obsoletas e extintas.

Pense por exemplo nos discos de vinil, os famosos LPs. Se você tem menos de 30 anos, provavelmente vai ter que procurar no Google para saber o que isso significa. Até uns poucos anos atrás, os apreciadores da música analógica, cheia de chiados e de difícil manuseio tinham que recorrer a sebos e outros meios para conseguir completar suas coleções. Atualmente, o mercado brasileiro de prensagem de novas edições de discos de vinil não para de crescer. Em 2014 foram prensados 102 mil discos, no ano seguinte 123 mil e em 2016 foram prensados 150 mil discos, na contramão da constante queda nas vendas de CDs. Interessante notar também que os novos LPs são muito mais caros de que aqueles que comprávamos na nossa adolescência. Para os que acham erroneamente que o mercado fonográfico brasileiro não serve de parâmetro, o famoso estúdio Abbey Road em Londres vendeu cerca de 2 milhões de LPs em 2016, o que não acontecia desde os anos 90.

Outro fenômeno analógico improvável: relógios. Sério. Quem usa relógio analógico hoje em dia? O máximo que se vê são essas bugigangas digitais multifuncionais que servem para fazer ligações telefônicas, tirar fotos e medir distâncias, batimentos cardíacos, trajetos e outras coisas. Coincidentemente essas coisas também dão a hora e são muito melhores que o radio comunicador do Dick Tracy (olha o Google aí de novo…).  Mas eis que a indústria relojoeira da Suíça assume a primazia do mercado mundial de relógios pela primeira vez desde os anos 80 quando foi ultrapassada pelo Japão com seus relógios digitais a quartzo. O interessante é que o Japão continua produzindo mais relógios mas é a Suíça que fatura mais com a venda de seus produtos que são obviamente mais caros.

E as canetas? Canetas também são coisa do passado. Quando foi a última vez que você escreveu uma carta? Ou mesmo um texto com mais de duas linhas? Canetas tinteiro ou de pena então são completamente inúteis, até por que são difíceis de usar e fazem a maior sujeira. Pois bem, de acordo com a reportagem da CBN, em 1957 foram vendidas 45 milhões de canetas de pena. Em 1974, apenas 7 milhões, mas em 2007 o número cresceu para 20 milhões e agora se aproxima dos patamares dos anos 50.

Seria possível argumentar que esses dois mercados lidam com bens de luxo, que não seguem o fluxo das tendências tecnológicas. Mas essa seria uma explicação parcial. Marcas como Mont Blanc, a preferida dos políticos e novos ricos brasileiros dos anos 90, Cartier e Cross certamente ainda são muito cobiçadas e caras. Mas as marcas mais acessíveis como Faber Castel e Parker compõe a maior parte desse mercado. O mesmo vale para os relógios, inclusive com o surgimento de marcas de nicho mais acessíveis.

O estudo analisou também as livrarias. Quantas vezes você já ouviu dizer que as livrarias de bairro vão acabar? Essa notícia é velha. Já foi até roteiro de filme com o Tom Hanks e a Meg Ryan nos anos 90. Não dá pra competir com a escala, a logística e a tecnologia das grandes redes, certo? Errado. O estudo verificou um crescimento consistente no número de livrarias de bairro nas pequenas e médias cidades americanas, ao contrário das grandes redes que agora definham em vista da concorrência com a Amazon. O estudo identificou que em 2009 havia 1651 livrarias de rua nos Estados Unidos. Em 2015 esse número subiu para 2227. Um aumento de 35%.

O estudo oferece duas explicações para esse fenômeno. A primeira, um pouco menos convincente na minha opinião, é de que esse tipo de negócio desfruta de uma ressonância comunitária e por isso mesmo goza de um certo favorecimento no momento em que o consumidor decide adquirir um livro. Outra explicação seria uma maior valorização da curadoria do livreiro, ou seja, a fuga do algoritmo. Se como eu, você é um leitor do tipo compulsivo, provavelmente aprecia o fato de a Amazon saber que você gosta de romances históricos ou ficção científica, pois isso permite que você termine um livro e comece outro muito similar sem perder tempo, como um fumante que acende um cigarro novo na bituca do anterior. Mas muitas e muitas vezes isso não é suficiente. Descobriu-se portanto que uma boa dica de livro serve como um poderoso motivador para revitalizar um negócio considerado à beira da extinção.

Analisando-se esses fenômenos individualmente seria possível identificar as relações de causa e efeito de cada cenário e explicar como e por que eles aconteceram. Mas dificilmente esses fenômenos poderiam ter sido previstos. Não dá pra dizer por exemplo que a tendência que leva as pessoas a comprarem discos de vinil sirva de base para uma previsão sobre o mercado de instrumentos musicais. Moral desta fábula: deixe as previsões do futuro para a moça do tempo do Jornal Nacional. Se ela errar num dia, você ainda vai ter a sorte de ver ela fazer uma nova previsão no dia seguinte.

Enfim, como usuário de relógios analógicos, apreciador de discos e colecionador de canetas tinteiro, nunca me senti tão atual! Talvez o meu único defeito tenha sido abandonar os livros de papel para comprar e-books para o Kindle na loja da Amazon…