M&A: Descomplicando a chatice – Parte 1



10/05/2017

Por Ricardo Akio

Muito bem, depois de muito esforço e muita perseverança, a ideia de ver o negócio se desenvolvendo está amadurecendo. Talvez agora sem a participação direta e constante no dia-a-dia ou mesmo participando com menos intensidade, ou ainda, continuar na batalha, mas com mais parceiros/sócios. Independentemente da situação específica, também está na hora de olhar mais detalhadamente algumas coisas. Nesta conversa, formatada em alguns artigos, vamos discutir alguns aspectos das demonstrações financeiras

Sem dúvida, como alguém que fez o negócio acontecer, materializar-se e crescer, você, sócio/executivo, tem o seu modelo de gestão da empresa. Neste momento, pouco importa se ele é o estado-da-arte da teoria administrativa, a melhor solução tecnológica de ERP (Enterprise Resource Planning, sistema integrado de solução empresarial) ou a mais pura e autêntica sensibilidade do negócio (os ibéricos não utilizavam GPS nas grandes navegações, certo?). É chegado o momento de buscar ver o seu negócio também pelas lentes do investidor. E para esses olhos, inclui a leitura, em uma linguagem muito peculiar, das chamadas demonstrações financeiras. Principalmente, de duas peças: o balanço patrimonial e a demonstração de resultados.

Se neste ponto se você já pensou na figura do contador e no pagamento de impostos, não se preocupe. De certo modo, isso faz parte da nossa cultura brasileira. Explico: para muitos, pode ser surpresa, mas ciências contábeis e atuarias, a Contabilidade, é uma ciência humana. Sim, envolve muitos números e cálculos, mas ela é uma ferramenta de controle e de informação, uma linguagem de negócios. Possui elementos da Teoria da Comunicação e Semiótica, além de ter um componente cultural. Tanto que até algum tempo atrás, cada país poderia ter o seu conjunto de regras para reconhecimento, para mensuração e para evidenciação, cujos critérios muitas vezes eram defendidos como as cores da seleção nacional.

Historicamente, para quem serviria este tipo de controle? Basicamente, dois grandes grupos externos: governo/credores e investidores. Tipicamente, o primeiro grupo tem interesse de acompanhar o desempenho das empresas de acordo com os seus critérios estabelecidos para calcular, por exemplo, os tributos devidos. Isso nos é mais familiar, certo? Somos contabilmente descendentes de uma escola germânica, com certa prevalência da forma sobre a essência e controles regulados pelo Estado. No entanto, a integração econômica e de capitais tem um papel fundamental no mundo. Assim como o inglês é a linguagem do mundo dos negócios globais, o padrão contábil de origem anglicana passa ter um peso muito importante e ele é mais voltado ao segundo grupo, os investidores, isto é, com certa prevalência da essência sobre a forma, com o interesse de como mostrar a empresa para que outros participem dos riscos e dos resultados. Passa-se se utilizar mais o conceito de valor justo (fair value) do que o valor histórico e documental. Que fique claro, como toda ciência humana, per si, não existe uma melhor que a outra, pois elas refletem a história, os usos e os costumes, enfim a cultura.

Caminhando para finalizar, com uma breve digressão. Atualmente, existem dois principais padrões contábeis: o USGAAP (United States Generally Accepted Accounting Principles, princípios contábeis norte-americanos usualmente aceitos) e o IFRS (International Financial Reports Standards), padrão de origem europeu, mas que tem obtido aderência e a contribuição de vários outros países, inclusive do Brasil. Dadas as mais diversas implicações, normalmente não se fala em substituição, mas em harmonização das normas contábeis. O FASB, órgão que regula o USGAAP e o IASB, órgão que regula o IFRS, tem em seus estatutos a declaração de convergência das normas entre si, buscando uma linguagem comum. O mesmo princípio de harmonização, vale para a adaptação das normas brasileiras ao IFRS. E aquelas empresas que acessam mercados de capitais no Exterior como a bolsa de Nova Iorque (NYSE, New York Stock Exchange), além do padrão brasileiro, obrigatório em território nacional, também o fazem em IFRS ou em USGAAP, obrigatório por lá.

Finalizando. Não se sinta muito culpado quando surge certa impaciência ao falar em demonstrações financeiras (vamos chamar o contador…). Lembre-se que ela é uma linguagem de negócios. E estamos acostumados a associá-la ao governo e pagamento de impostos. Altruísmos a parte, o Governo, representando a sociedade, é um dos stakeholders de uma empresa. Não o principal ou tampouco o único. Mas nesse momento que buscamos investidores, precisamos falar coerente e fluentemente com eles para evitar ruídos, que dificultem a evolução dos negócios.

Continuamos no próximo artigo na próxima semana…