M&A: Descomplicando a chatice – Parte 2



Por Ricardo Akio

No artigo anterior, comentamos sobre a necessidade de olhar as demonstrações financeiras com os olhos do investidor, ainda que estejamos acostumados a associá-las ao pagamento de tributos. Em outras palavras, em como usar as demonstrações financeiras para mostrar melhor o negócio.

Já observaram essa situação? Durante uma apresentação da empresa, para explicar o balanço e a demonstração de resultados, o empreendedor passa a palavra ao contador. O sócio/executivo que normalmente se empolga em mostrar a história, o conceito, o produto, o crescimento, não raras vezes, tem dificuldade, inclusive em apresentar, o histórico contábil dos últimos anos. Por exemplo, os demonstrativos não estão disponíveis, precisa ligar para os últimos escritórios contábeis e fazer uma força-tarefa de recuperação arqueológica. As peças contábeis parecem ser feitas em realidade distinta da vivenciada pelo empreendedor. Mas quem melhor que ele próprio pode dar vida e conotação aos números?

Em empresas abertas cotadas em bolsa é comum encontrarmos a estrutura de um departamento de relações com investidores e a realização de conferência com analistas de investimentos trimestralmente. Observe que quem normalmente faz a apresentação dos resultados aos investidores é a administração executiva: o CEO, o CFO ou o diretor de relações com investidores. A transparência afeta o valor da empresa.  O contador é o responsável pelas peças contábeis, assinando e apondo o seu número de registro profissional na publicação. Nas empresas médias e mais enxutas, o sócio/executivo é quem personifica a organização e, portanto, é quem melhor pode dar credibilidade nos números contábeis junto aos investidores, mostrando a ligação com a estratégia e a operação. Por óbvio, ele também precisa estar confortável com os valores e os conceitos. Isto é, tanto quanto todas as outras atividades naturais do empreendedor, o balanço patrimonial e a demonstração de resultados tem de ser vistos e acompanhados regularmente pelo sócio/executivo e não apenas para cumprir obrigações tributárias ou ser uma peça a arquivar na junta comercial. É a linguagem de negócios a ser aprendida e praticada consciente e regularmente. E acredite, é uma comunicação mais fluida e assertiva quando os investidores conversam diretamente com os gestores conscientes de seus números contábeis, reduzindo eventuais ruídos e facilitando um eventual processo de verificação (due diligence).

O princípio aqui é o mesmo de uma faxina em casa: ter somente o necessário e saber onde ele está. Em outras palavras, se os saldos patrimoniais representam adequadamente aquilo que deveriam. Por exemplo, operações entre empresas do grupo devidamente registradas ou transações como pessoa física e como pessoa jurídica. Não raro essas coisas se confundem, certo? Afinal, é o mesmo bolso…. Especialistas em organização doméstica, como a japonesa Marie Kondo, escritora e consultora no assunto, afirmam que, no início, requer mais trabalho manter arrumado do que o esforço concentrado para arrumar.  No entanto, incorporando elementos de disciplina e constância, inverte-se o ciclo da frustração que se segue no pós-faxina. Analogia válida para as demonstrações financeiras.

Em resumo, não espere um momento de busca de parceiros estratégicos para começar a ver e entender as demonstrações financeiras. Reserve um tempo para analisar e questionar os números regularmente e ter uma linha de discurso coerente com toda a história, a estratégia e a operação da empresa.

Em um próximo artigo, vamos comentar sobre os controles contábeis e gerenciais.