O fim dos santinhos.



Por Clemente Hungria

Enquanto que aqui na Terra Brasilis nós descobrimos recentemente que algumas gráficas contratadas por partidos políticos para fazer os famigerados santinhos, nada mais eram do que frentes para lavagem de dinheiro, do lado de lá do Equador o problema parece um pouco mais grave, ou no mínimo sofisticado.

Base de qualquer regime democrático que se preze, o processo eleitoral parte do princípio básico que os eleitores votam nas propostas (ou nas pessoas como ocorre por aqui) com que mais se identificam. Mas e se os candidatos soubessem de antemão quais são as preferências do eleitor? Pois é, de acordo com uma reportagem veiculada na CBN em 20 de junho, parece que estamos caminhando para esse cenário…

Uma empresa chamada Deep Root Analytics que trabalha para o Partido Republicano hospedou na Amazon um banco de dados aberto (isso mesmo, sem qualquer tipo de proteção) contendo informações demográficas e de filiação partidária de 198 milhões de eleitores americanos. Isso corresponde a 61% da população do país e mais de 98% dos eleitores registrados. Como essas informações são públicas nos Estados Unidos, montar esse banco de maneira legítima foi uma questão de esforço e tempo, ao contrário dos vendedores de CDs com bases de CPFs que proliferam na região da Santa Efigênia em São Paulo.

A partir dessa base, a Deep Root Analytics realizou buscas nos mais diversos recônditos da Internet, dos mais óbvios como Facebbok, Twitter, Rabbit e LinkedIn àqueles destinados a públicos mais específicos como fóruns e salas de debate. Utilizando técnicas de data mining e inteligência artificial associadas a um processo conhecido como análise de sentimentos, a empresa foi capaz de identificar o posicionamento dos eleitores em relação ao porte de armas, imigração, política externa, aborto  e muitos outros temas que costumam influenciar os resultados das eleições americanas.

Essas informações estão sendo utilizadas pelo Partido Republicano para produzir propaganda direcionada, não apenas para seus eleitores fiéis mas também para a crescente parcela da população americana que não tem afiliação partidária explícita mas que se identifica com alguns pontos da plataforma de cada partido. É óbvio que o Partido Democrata também tem um processo parecido, mas ele não está em evidência.

De forma muito simplificada, a coisa funciona mais ou menos assim: apesar de seu perfil republicano você não é afiliado a nenhum partido político. Você tem um primo que é imigrante ilegal (parece que todo mundo tem um primo imigrante legal nos Estados Unidos hoje em dia) com quem você conversa através do Facebook. Você também participa de um fórum no qual discute a melhor maneira de fazer a manutenção do seu rifle de caça (acredite, isso é muito comum na terra do Tio Sam). Pronto! A Deep Root Analytics já sabe que você é aderente à plataforma republicana mas é contra imigração. Isso significa que a propaganda eleitoral à qual você será exposto não falará muito sobre controle de imigração, mesmo esse sendo um tópico essencial da plataforma republicana.

Nós estamos muito mais expostos à propaganda direcionada do que gostaríamos de imaginar. Não é coincidência o fato de você ver propagandas de um carro que gostaria de comprar em sua página do Facebook ou o fato da Amazon saber exatamente que tipo de livro você gosta de ler. O processo é muito parecido. Mas se é isso mesmo, então qual é o problema da propaganda direcionada na política?

Que tipo de processo eleitoral teremos se os partidos políticos exercitarem a capacidade de “escolher” a divulgação dos tópicos de suas plataformas de acordo com os as aspirações dos eleitores? Me parece uma inversão perversa do processo eleitoral: não é mais o eleitor que escolhe o partido com qual melhor se identifica, mas o partido que adapta a sua promessa aos olhos e ouvidos incautos dos eleitores.

Cada vez mais eu me convenço que o Big Brother (o do George Orwell, não o do Pedro Bial) era na verdade um otimista incorrigível…