Papo Jedi: O legado, o largado e o negado

Por Clemente Hungria

A ressaca é enorme, afinal de contas foram praticamente dez anos de grandes eventos esportivos. Começando em 2007 com os Jogos Panamericanos, tivemos a Copa das Confederações em 2013, a Copa do Mundo em 2014, os Jogos Mundiais Militares em 2015 e os Jogos Olímpicos e Paralímpicos em 2016. A polêmica sobre a decisão de sediar ou não esses eventos não é nova e convenhamos, a essa altura do campeonato, completamente irrelevante. Por outro lado, passados todos esses anos, pode ser útil fazer um balanço de algumas coisas que ganhamos, algumas que perdemos e outras que nunca tivemos.

Comecemos pelas coisas que nunca tivemos, pois elas colocam uma pá de cal sobre aquela discussão estéril entre as pessoas favoráveis à realização de grandes eventos e aquelas que prefeririam que essa dinheirama toda fosse usada na construção de escolas e hospitais. Recentemente alguns países como a Itália e a Suécia retiraram suas candidaturas para sediar as Olimpíadas e isso causou repercussão no Brasil, fortalecendo o argumento da turma favorável às escolas e hospitais. Entendo que, no Brasil (e francamente, na Itália também), essa lógica é ilusória, uma vez que o país está muito longe de atingir um nível de governança tal que permita aos seus cidadãos decidirem onde será gasto a dinheiro proveniente dos impostos.

Isso significa que, realisticamente, o “legado” apregoado pelo COI e principalmente pela FIFA e pelos diversos níveis do governo Brasileiro é na verdade um “largado”, ou seja: são promessas que dificilmente seriam cumpridas. Além da corrupção sistêmica e da inépcia do poder público, contribui para esse estado de coisas uma escassez crônica de profissionais capazes de planejar e executar um projeto complexo, como um estádio por exemplo, dentro do prazo e do orçamento. Não existem números oficiais, mas é seguro dizer que, de tudo que foi classificado como legado desde 2007, menos de 50% foi executado. E não vamos nem considerar os prazos e orçamentos dessas coisas que ficaram prontas. Por outro lado, como se viu no final das contas, os eventos foram pouco afetados por esses “largados”.

Agora vamos às perdas. Nesse aspecto, a Copa das Confederações e a Copa do Mundo foram imbatíveis, mesmo se deixarmos de lado o 7 a 1. O modelo de organização de eventos da FIFA é predatório para os países escolhidos para sediá-los. Tão predatório que a própria instituição resolveu “baixar bola” e diminuir as exigências a partir de 2026. Só em isenções fiscais o Brasil abriu mão de centenas de milhões de reais. O dinheiro gasto com estádios pouco utilizados também deve ser contabilizado como perda, mesmo se as construções não tivessem se dado sob intensa corrupção.

Talvez a maior perda seja a mais difícil de medir: a perda das oportunidades… Em outros países (nem todos), eventos de exposição mundial como esses acabam propiciando benefícios econômicos e sociais de longo prazo, o que não deverá se repetir no nosso caso. Um exemplo apenas: nos onze anos que se passaram entre a Copa da 1982 e os Jogos Olímpicos de Barcelona, a Espanha passou de um dos países mais pobres e atrasados da Europa, recém saído da ditadura do General Franco, para um dos mais importantes membros da comunidade européia, habilitando-se a integrar a zona do Euro alguns anos depois.

Se as perdas são fáceis de contabilizar, os legados são mais sutis, mas nem por isso menos importantes. Um dos mais relevantes é a valorização das pessoas com necessidades especiais, por conta da realização dos Jogos Paralímpicos, muito embora seja pouco provável que essa valorização se reverta em políticas públicas no curto prazo.

Outro legado meio intangível. Parece que “ganhamos” o Rio de Janeiro de volta. É óbvio que os problemas crônicos da cidade não estão nem perto de serem solucionados, mas há diversos relatos na mídia sobre um certo senso de pertencimento que tomou conta do cidadão carioca e que reverbera no resto do país. Algo que não acontecia desde que a cidade deixou de ser a capital federal no início dos anos sessenta. As mudanças cosméticas e superficiais acabaram por catalizar um comportamento coletivo positivo em relação à cidade.

Outro impacto positivo: com muito atraso, a partir dos jogos Panamericanos, o conceito do atleta de alto rendimento finalmente passou a fazer parte da realidade dos profissionais do esporte. Novamente, as políticas públicas ainda são ineficazes e deram pouco resultado, como mostrou o pífio quadro de medalhas das Olimpíadas. Mas é significativo o impacto que essa nova casta de atletas desempenha na movimentação do mercado e da indústria relacionados ao esporte e também na formação de novos praticantes.

Nesses últimos dez anos, toda a cadeia produtiva relacionada aos esportes e aos grandes eventos se profissionalizou, ainda que na marra e apesar dos inúmeros exemplos de amadorismo e corrupção. Enfim, se perdemos muitas oportunidades como mencionei acima, estamos também criando outras para o futuro. Afinal de contas, no Brasil quase tudo é uma questão de como você enxerga o copo: meio vazio ou meio cheio…

 

 

Compartilhe esta página: