RFID – Afinal, pegou ou não pegou?



Por: Ricardo Ruiz Rodrigues

Gostaria de dar uma resposta mais objetiva a esta pergunta, mas infelizmente terei ainda que fazer uso da famosa palavra: “depende”.
É fato que esta tecnologia ao longo dos últimos 5 anos enfim alcançou massa crítica para se tornar mais barata e não mais se inviabilizar pelo lado do custo já para uma grande maioria das operações, porém algumas limitações da própria tecnologia em si tem se juntado a este fator, contribuindo para conter um crescimento maior da sua adoção nas cadeias de valor.
A principal limitação está na confiabilidade do registro do evento da passagem ou movimentação do produto em certas situações, em função de interferências à leitura da etiqueta RFID. É notório o avanço em precisão e direcionalidade nos leitores (fixos ou móveis) de etiquetas RFID, bem como o hardware das próprias etiquetas, porém não o suficiente para eliminar ocorrências de o produto ser lido por um sensor adjacente (e passar a informação errada de que está entrando em outro setor/doca, por exemplo) ou não ser lido (por estar dentro de um pallet ou caixa muito denso, misturado com outros produtos). O retrabalho gerado por estas leituras incorretas, mesmo que reduzido pelos avanços tecnológicos dos últimos anos, causa um transtorno ao controle de estoque das operações que tem atuado como um freio à adoção em massa da tecnologia.

Para mitigar ao máximo este tipo de ocorrência se faz necessário uma revisão completa do lay-out e fluxos das mercadorias, e muitas vezes a operação não está interessada ou não tem possibilidades de fazê-lo. E este desinteresse ganha força especialmente quando se verifica que, para a maioria das situações, o código de barras ou ainda o QR-Code atendem muito bem as necessidades.

O RFID encontra adeptos e comprovadamente agrega valor atualmente em três grandes grupos:

  1. Indústria/Varejo de fármacos – o alto valor e a necessidade de controle de muitos dos produtos, atrelado a uma crescente exigência por nível de serviço e, em alguns mercados, mitigação de riscos de roubo e perda, tem favorecido a adoção do RFID. As operações logísticas de muitos players nestas cadeias já encontram um nível de automação razoável, o que facilita a detecção confiável da passagem/movimentação dos produtos pois em grande parte do fluxo o produto está se movimentando dentro de bandejas plásticas em transportadores – a “canalização” e “granularidade”do fluxo de manuseio e movimentação facilita a adoção do RFID com alto nível de confiabilidade.
  2. Varejo de vestuário (grande porte) – os grandes varejistas/distribuidores de artigos de vestuário de 5 anos para cá vem percebendo o grande benefício do RFID especialmente no tramo CD-Loja. Com lay-outs otimizados e preparados adequadamente, o processo de recebimento de estoques de vestuário nas lojas tem se tornado muito mais ágil e confiável com o uso de RFID. O fluxo do consumidor também dentro da loja e ao sair da loja é um tanto direcionado, facilitando a leitura/detecção confiáveis usando esta tecnologia. Vale comentar, porém, que nas movimentações internas em centros de distribuição neste setor o uso do RFID ainda é limitado pelas razões de confiabilidade apontadas anteriormente – o valor mais percebido neste setor no momento está à jusante do CD na cadeia.
  3. Situações com itens de alto valor agregado, com regras e locais(fluxos) de movimentação definidos e forte necessidade de controle – nestes casos, por força destes próprios motivadores, o processo e o lay-out atuais já favorecem a adoção do RFID sem entrar em questões de confiabilidade de leitura. O automatismo oferecido pelo RFID e por consequência a reduzida dependência do operador tem seduzido os líderes de supply chain destas cadeias a adotar a tecnologia, sendo mais fácil justificá-la e colocá-la em operação com aumento na confiabilidade em relação à tecnologia existente.

 

Para as operações que não se encaixam nas situações acima, o que se vê mais são pilotos experimentais que ainda não se traduzem em um uso mais amplo. O tradicional código de barras e, nos últimos anos, o QR-Code têm atendido bem as necessidades e permitido ótimas evoluções na velocidade, digitalização e controle das operações.

Finalizo aqui com aquela frase que muitos já sabem, mas não custa nada lembrar: “primeiro os processos e os procedimentos, depois as tecnologias.”. Quando apoiamos nossos clientes na melhoria ou transformação de suas operações, aplicamos com rigor esta máxima. Um trabalho consistente e profundo de otimização de processos é fundamental para se selecionar e introduzir a tecnologia correta para satisfazer as necessidades do negócio em um dado momento, sempre com muita atenção para o nível de maturidade que se tem na operação. Tecnologias mais recentes e mais avançadas (e portanto mais complexas e sensíveis) como o RFID precisam encontrar o solo fértil adequado para realmente agregarem valor – felizmente, o número de aplicações tem crescido muito nos últimos anos, mas há ainda diversas situações onde a adoção desta tecnologia ainda não compensa ou traz uma complexidade desnecessária para a operação, a qual pode ser resolvida por outros meios mais eficazes e de menor custo e que trarão, neste momento, o resultado esperado.