Sobre software e hardware



Por Clemente Hungria

 

No início dos anos 2000, durante um dos inúmeros lançamentos do Windows em uma feira de informática, Bill Gates, então CEO da companhia, fez uma declaração das mais infelizes: “Se a GM tivesse evoluído tecnologicamente tanto quanto a indústria de softwares evoluiu, estaríamos todos dirigindo carros que custariam 25 dólares e que fariam 1000 milhas por galão”.  A resposta da GM foi rápida, extensa e divertida, com pérolas do tipo:  “Se a Microsoft fabricasse carros, toda vez que eles repintassem as linhas das estradas, você teria de comprar um carro novo.” ou “Para desligar seu carro, você teria de apertar o botão ‘Iniciar'”.

Essa estória ilustra um antigo conflito entre a indústrias de software e de hardware, no sentido mais amplo da palavra. Esse conflito está prestes a ganhar um novo capítulo.

Quando os computadores se tornaram populares no início dos anos 80, o custo das máquinas (hardware) ainda era muito alto. Tão alto que, ao comprar um computador, você ganhava todos os softwares que iria precisar. Naquela época era quase impossível ir a uma loja para comprar uma planilha eletrônica ou um editor de texto. No mundo corporativo, os computadores eram absurdamente mais caros e quase todo o software era desenvolvido internamente. Esse cenário foi mudando lentamente, e nos meados dos anos 90 os computadores custavam mais ou menos a mesmo valor que se gastava com os softwares. Isso valia tanto para as pessoas como para as empresas.

No início dos anos 2000 essa situação começou a mudar mais rapidamente. Quinze anos mais tarde, chegamos a um estado de coisas em que o hardware está se tornando praticamente uma commodity, um mal necessário para viabilizar a aquisição e utilização do software, especialmente no mundo corporativo, onde aplicações podem custar 100 vezes mais do que as máquinas que as abrigam. Em teoria, não há nada de errado com isso, desde que os fabricantes de hardware e software estejam preparados para mudanças, pois a história mostra que elas invariavelmente acontecem.

A computação quântica e os sistemas de armazenamento baseados em moléculas orgânicas deverão tomar de assalto o mercado de tecnologia. Isso pode não acontecer na semana que vem, mas pode apostar que vai acontecer. E não se trata de meros aperfeiçoamentos. Para se ter uma ideia do tamanho da mudança, um terabyte de memória hoje equivale a apenas 43 bits quânticos (chamados de Qubit). Outro conceito maluco: apenas um grama de molécula de DNA pode armazenar 700 terabytes de dados. Conclusão: muito antes de você morrer, o controlezinho que você usa para abrir a garagem do seu prédio vai ter a mesma capacidade de processamento e armazenamento que os maiores supercomputadores de hoje.

“E dai?”, você pergunta.

A história do capitalismo mostra que mudanças dessa natureza aniquilam indústrias inteiras, principalmente aquelas que se sentem “confortáveis” com seus modelos de negócios e com os lucros que estão auferindo. Quer um exemplo? Os grandes fabricantes de softwares corporativos. O modelo de negócios dessas empresas é baseado na dependência que seus clientes têm de algo que eles não conhecem: a tecnologia. A precificação de seus produtos e serviços também é um mistério, pois varia de acordo com o tamanho do bolso do freguês.

Num cenário onde os computadores serão infinitamente superiores, as plataformas de desenvolvimento serão mais poderosas, simples e intuitivas e as crianças do ensino fundamental já vão saber programar, existe uma grande possibilidade de retornarmos aos anos 80, onde o hardware era o grande investimento e o software era desenvolvido internamente.  Nesse ambiente, grandes fabricantes de soluções corporativas que vendem softwares “fechados” e serviços – alguns muito difíceis de justificar – terão grandes dificuldades para sobreviver.

Eu aposto.